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Europa como epicentro de aquecimento e ondas de calor

A Europa se tornou o epicentro de uma crise de calor que já é, antes de tudo, uma crise de saúde pública.

A região aquece em ritmo aproximadamente duas vezes superior à média global. Somada à urbanização intensa, a edifícios pouco preparados e ao envelhecimento da população, essa aceleração torna as ondas de calor mais frequentes, longas e perigosas. O resultado já aparece nas estatísticas: o calor é hoje a principal causa de morte associada ao clima no continente.

Um verão que expõe a dimensão do risco

Os últimos verões deixaram claro que o problema não é pontual. Estimativas para 2022 apontaram mais de 60 mil mortes ligadas ao calor em 35 países europeus; em 2023, foram cerca de 47,5 mil. Em 2026, os primeiros levantamentos voltaram a indicar uma elevação expressiva de mortes durante a onda de calor de junho.

Na França, o período entre 17 de junho e 2 de julho registrou milhares de mortes em excesso, com impacto especialmente alto entre pessoas acima de 75 anos. Bélgica, Holanda e Espanha também relataram aumentos relevantes na mortalidade. Em escala continental, os sistemas de monitoramento apontaram uma das semanas de junho mais letais desde o início dessa série de dados.

Esses números não significam que cada morte tenha uma única causa. O calor atua como um agravante silencioso: empurra organismos já vulneráveis além do limite, piora doenças preexistentes e sobrecarrega serviços de emergência.

Por que o calor extremo mata

O corpo humano depende da evaporação do suor e da circulação sanguínea para dissipar calor. Quando a temperatura permanece alta por dias — sobretudo à noite — esse mecanismo perde eficiência. A desidratação se instala com mais facilidade, a pressão arterial oscila, o coração trabalha mais e os rins ficam sob estresse.

Em pessoas com insuficiência cardíaca, hipertensão, arritmias, doença coronariana, asma ou doença pulmonar crônica, uma onda de calor pode precipitar descompensações graves. O risco aumenta ainda mais quando há poluição do ar, pouca ventilação e dificuldade de acesso à água ou a ambientes resfriados.

O impacto não é apenas físico. Calor intenso pode provocar desorientação, irritabilidade, crises de ansiedade e piora de transtornos de saúde mental. Muitas mortes ocorrem em casa, onde o alerta chega tarde e a pessoa está isolada.

Quem está mais exposto

Idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol estão entre os grupos de maior risco. Mas a vulnerabilidade também tem endereço e renda: apartamentos pequenos, prédios antigos, último andar, pouco isolamento térmico e ausência de ar-condicionado aumentam a carga de calor dentro de casa.

Quem trabalha em construção, agricultura, transporte ou serviços externos enfrenta outro tipo de exposição: esforço físico sob temperaturas elevadas, pausas insuficientes e dificuldade de interromper a jornada. Por isso, o calor extremo não é só uma questão meteorológica; ele revela desigualdades de moradia, trabalho e acesso à proteção.

Prevenir é possível

Mortes por calor não são inevitáveis. Planos de ação que conectam alertas meteorológicos a medidas de saúde pública podem reduzir danos de forma concreta. A resposta inclui identificar pessoas em maior risco, ampliar a comunicação antes do pico de temperatura, preparar hospitais, abrir espaços de resfriamento e coordenar saúde, assistência social, trabalho, habitação e planejamento urbano.

Cidades também precisam se adaptar. Mais áreas verdes, sombra nas ruas, materiais que absorvem menos calor, ventilação natural e transporte que reduza a exposição ao sol fazem parte da prevenção. Hospitais e unidades de saúde devem contar com refrigeração, protocolos de triagem e planos para picos de demanda.

Medidas práticas durante uma onda de calor

Em casa, pequenas decisões fazem diferença: fechar cortinas e persianas durante o dia, ventilar o ambiente à noite quando a temperatura cair, beber água regularmente antes de sentir sede e evitar álcool em excesso. Também é importante reduzir atividades ao ar livre nas horas mais quentes e observar sinais de tontura, confusão, fraqueza intensa, náusea ou falta de ar.

Checar vizinhos, amigos e familiares idosos é uma das medidas mais eficazes — especialmente para quem vive sozinho. Em ondas de calor, cuidado comunitário pode ser tão importante quanto qualquer equipamento.

O desafio europeu antecipa uma realidade que tende a alcançar outras regiões. Tratar o calor extremo como emergência de saúde pública, e não como simples desconforto do verão, é o primeiro passo para evitar que os próximos recordes de temperatura se transformem em novos recordes de mortes.